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O Corvo e a Raposa

Portugais · 1853

  • Fable de Gotthold Ephraim Lessing (1729–1781)
  • Traduite par João Félix Pereira (1822–1891)

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Texte

Um corvo levava nas garras um pedaço de carne envenenada, que o irritado jardineiro deitára aos gatos de seo vizinho.

E no mesmo momento em que elle ia comel-a sobre um velho carvalho, uma raposa se aproximou, e lhe disse: « Deus te abençoe, ave de Jupiter! » « Por quem me tomas? —perguntou o corvo.— » « Por quem te tomo eu? — respondeu a raposa. — Não és tu a vigorosa aguia, que todos os dias desce da dextra de Jupiter a este carvalho, para me alimentares a mim que sou pobre? Porque disfarças! não vejo eu nas victoriosas garras o supplicado presente, que por tua via teo Deus me continúa a mandar? »

O corvo ficou surpreso, e sentiu interior alegria, por ser tomado por uma aguia: « Não devo — pensava elle — tirar a raposa d’este erro. » Generosamente estupido deixou-lhe cahir sua presa, e deitou a voar orgulhosamente.

A raposa apanhou a carne, rindo-se, e a comeu com maliciosa alegria. Mas pouco depois a alegria se converteu em doloroso sentimento, o veneno principiou a actuar, e a raposa rebentou.

Oxalá que vós, malditos lisonjeiros, não obtivesseis com vossos louvores, senão veneno.

Source

Fabulas de G. E. Lessing, traduzidas do allemão, Lisboa 1853

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