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A Formiga, e a Cigarra

Portugués · 1843

  • Fábula de Jean de La Fontaine (1621–1695)
  • Traducción libre de Belchior Manuel Curvo Semedo (1766–1838)

Texto

Tendo a Cigarra cantado Todo o verão sem governo, Em nada tinha cuidado, E era o principio do inverno Achava-se desprovida Do sustento para a vida; Triste futuro augurava Na collisão, em que estava; Lembrou-lhe certa vizinha Dona Formiga de Tal, Qu’ hum farto celleiro tinha, Posto que era voz geral Ser mui pouco liberal: Foi a sua casa então, E estendeu-lhe este panal, » Vizinha do coração » A seus pés hoje aqui venho » Fazer-lhe huma petição, » Cahem-me as faces no chão » Pela vergonha que tenho: » He o negocio, eu queria » Que me emprestasse algum grão » Do que Vossa Senhoria » Nos seus celleiros encerra, » Pois que esta mesquinha terra » Me tem sido tão fatal! » Quando vier Julho ardente » Serei muito pontual » Em pagar-lhe exactamente, » Não só o seu principal, » Mas aquillo em que assentarmos » Nos ajustes que tratarmos. Esteve-lhe ouvindo tudo Mui seriamente a Formiga, E torna-lhe em tom sisudo, » Que fez no verão amiga? » Que fiz? amada Senhora, Diz a Cigarra, » cantei. » Era o mesmo qu’ eu pensei, » Pois póde bailar agora: A Formiga respondeu, » Fizesse como fiz eu, » Que trabalhei no verão » Para no inverno ter pão. Quem só nos divertimentos, Sem cuidar na subsistencia, Occupa os seus pensamentos, Quando cahir na indigencia Conte qu’ o mesmo hade ouvir A’quelles a quem pedir.

Fuente

Traducção livre das melhores fabulas de La Fontaine, Lisboa 1843

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