Tendo a Cigarra cantado
Todo o verão sem governo,
Em nada tinha cuidado,
E era o principio do inverno
Achava-se desprovida
Do sustento para a vida;
Triste futuro augurava
Na collisão, em que estava;
Lembrou-lhe certa vizinha
Dona Formiga de Tal,
Qu’ hum farto celleiro tinha,
Posto que era voz geral
Ser mui pouco liberal:
Foi a sua casa então,
E estendeu-lhe este panal,
» Vizinha do coração
» A seus pés hoje aqui venho
» Fazer-lhe huma petição,
» Cahem-me as faces no chão
» Pela vergonha que tenho:
» He o negocio, eu queria
» Que me emprestasse algum grão
» Do que Vossa Senhoria
» Nos seus celleiros encerra,
» Pois que esta mesquinha terra
» Me tem sido tão fatal!
» Quando vier Julho ardente
» Serei muito pontual
» Em pagar-lhe exactamente,
» Não só o seu principal,
» Mas aquillo em que assentarmos
» Nos ajustes que tratarmos.
Esteve-lhe ouvindo tudo
Mui seriamente a Formiga,
E torna-lhe em tom sisudo,
» Que fez no verão amiga?
» Que fiz? amada Senhora,
Diz a Cigarra, » cantei.
» Era o mesmo qu’ eu pensei,
» Pois póde bailar agora:
A Formiga respondeu,
» Fizesse como fiz eu,
» Que trabalhei no verão
» Para no inverno ter pão.
Quem só nos divertimentos,
Sem cuidar na subsistencia,
Occupa os seus pensamentos,
Quando cahir na indigencia
Conte qu’ o mesmo hade ouvir
A’quelles a quem pedir.